Timothy Morton
Timothy Morton é um filósofo britânico-americano associado à ontologia orientada a objetos (OOO) cujos conceitos de hiperobjetos — entidades massivamente distribuídas como as mudanças climáticas, a radiação e a biosfera, que transcendem qualquer manifestação local — e de ecologia sombria reconfiguraram fundamentalmente os debates sobre ambientalismo, ontologia e a relação entre humanos e entidades não humanas. Professor da Rice University, Morton é uma figura central do realismo especulativo e desenvolveu uma filosofia ecológica singular que rejeita tanto os quadros romântico-naturalistas quanto os antropocêntricos, em favor de uma ontologia de 'malha' na qual todas as entidades, humanas e não humanas, coexistem em emaranhamento irredutível, sem qualquer totalidade abrangente.
Ideias Principais
Contribuições Principais
- ● Desenvolveu o conceito de hiperobjetos — entidades reais massivamente distribuídas como as mudanças climáticas, que transcendem a manifestação local — fornecendo à filosofia novas ferramentas para o pensamento ecológico
- ● Argumentou que o conceito de 'Natureza' (com N maiúsculo) é um obstáculo para a política ecológica, e não um recurso, exigindo que a ecologia seja repensada sem ele
- ● Desenvolveu a 'ecologia sombria' como uma filosofia ecológica que confronta morte, predação e o inquietante em vez de projetar harmonia romântica
- ● Introduziu o conceito de 'malha' — a frágil rede não totalizável de interdependências — como alternativa aos conceitos holísticos de natureza
- ● Aplicou a ontologia orientada a objetos a questões ecológicas, argumentando que as entidades não humanas têm realidade que excede as relações humanas
- ● Desenvolveu o conceito de 'estranho estrangeiro' para descrever a alteridade irredutível de todas as entidades na malha ecológica
Questões Centrais
Teses Principais
- ✓ Os hiperobjetos são entidades reais massivamente distribuídas no tempo e no espaço — mudanças climáticas, radiação, a biosfera — que têm poderes causais sem estar localmente presentes
- ✓ O conceito de 'Natureza' como totalidade prístina é uma construção romântica que deve ser abandonada para que o pensamento ecológico se torne filosoficamente rigoroso
- ✓ Todas as entidades existem numa 'malha' não totalizável de interdependências; não há um todo abrangente que as contenha
- ✓ Os objetos sempre se retiram parcialmente das relações — nenhuma relação captura plenamente o que uma entidade é
- ✓ A ecologia sombria deve confrontar morte, predação e o inquietante em vez de sustentar fantasias românticas de harmonia natural
- ✓ O estranho estrangeiro — a entidade que não é nem plenamente conhecida nem plenamente outra — é um modelo melhor para o encontro ecológico do que a identidade ou a alteridade radical
Biografia
Vida e Formação
Timothy Morton nasceu em Londres em 1968. Estudou literatura inglesa no Magdalen College, em Oxford, onde concluiu o BA e, posteriormente, o DPhil. Seu trabalho acadêmico inicial situava-se nos estudos do Romantismo — em particular Shelley, Keats e o engajamento romântico com alimentação, natureza e corporalidade —, e seu primeiro livro, Shelley and the Revolution in Taste (1994), foi uma contribuição aos estudos literários românticos.
Por meio de seu trabalho sobre Romantismo e ecologia, Morton tornou-se crescentemente interessado nos pressupostos filosóficos do ambientalismo e na construção cultural da 'natureza'. Seu livro Ecology Without Nature (2007) marcou a transição da erudição literária para a intervenção filosófica e o estabeleceu como voz significativa na ecocrítica e na filosofia ambiental.
Ecologia Sem Natureza e o Ambiente
Ecology Without Nature: Rethinking Environmental Aesthetics (2007) avançou uma tese provocadora: o conceito de 'Natureza' — com N maiúsculo, a ideia de um domínio prístino e separado exterior à cultura humana — não só é filosoficamente confuso como constitui efetivamente um obstáculo para a política ecológica genuína. A ideia de Natureza como uma totalidade pura e autocontida diante da qual os humanos se situam e que deveriam proteger ou à qual deveriam retornar é uma construção romântica que depende de tratar o mundo natural como uma espécie de pano de fundo ou cenário para o drama humano.
Morton introduziu o conceito de 'ambiente' (ambient) — um modo de experiência estética em que o entorno é sentido como envolvente e difuso, e não como objeto discreto — para analisar como a arte e a escrita ambientais constroem seus efeitos.
Hiperobjetos (2013)
A contribuição filosófica mais influente de Morton é o conceito de hiperobjetos, desenvolvido no livro homônimo (2013). Um hiperobjeto é uma entidade real massivamente distribuída no tempo e no espaço em relação aos humanos — tão distribuída que nenhuma manifestação local dela pode ser identificada com a própria coisa. Exemplos incluem: mudanças climáticas (nenhum evento meteorológico específico é as mudanças climáticas, mas estas são reais e têm efeitos causais), a totalidade de todo material nuclear, a biosfera, a internet e até mesmo a soma de todo o óleo de motor já utilizado.
Os hiperobjetos possuem cinco propriedades distintivas:
1. Viscosidade: 'grudam' em tudo que tocam — não é possível encontrar as mudanças climáticas sem estar implicado nelas
2. Não localidade: nenhuma manifestação local é o próprio hiperobjeto
3. Undulação temporal: alternam entre diferentes modos temporais — sua escala de tempo excede a experiência humana
4. Fasagem: aparecem de forma diferente em diferentes contextos dimensionais
5. Realidade interobjetiva: consistem nas relações entre coisas
O conceito de hiperobjetos foi amplamente adotado nas humanidades ambientais, na filosofia, na arquitetura, na arte e na teoria cultural como instrumento para lidar com a realidade de fenômenos em larga escala que resistem à apreensão fenomenológica ordinária.
Ecologia Sombria e a Malha
Dark Ecology: For a Logic of Future Coexistence (2016) desenvolve a filosofia ecológica de Morton num registro mais explicitamente político e ético. 'Ecologia sombria' nomeia um pensamento ecológico disposto a confrontar os aspectos sombrios, perturbadores e inquietantes da realidade ecológica — morte, decomposição, predação, parasitismo, sofrimento — em vez de projetar uma imagem reconfortante de 'natureza' como harmoniosa ou prístina.
Central à ecologia sombria é o conceito de 'malha' — a intrincada e contingente rede de interdependências na qual todas as entidades, humanas e não humanas, estão emaranhadas. A malha não é uma totalidade (não há um 'todo' que contenha todas as relações), mas uma rede frágil e aberta de coexistência. Morton recorre à desconstrução de Derrida, à filosofia budista (em particular a imagem da rede de Indra no Avatamsaka Sutra) e à OOO para articular uma visão de coexistência ecológica sem o conforto metafísico da Natureza-como-todo.
Ontologia Orientada a Objetos
Morton está estreitamente associado ao movimento realista especulativo e à ontologia orientada a objetos (OOO), desenvolvida principalmente por Graham Harman. A OOO sustenta que os objetos — entidades de qualquer tipo, de elétrons a sinfonias a ecossistemas — têm uma realidade que excede qualquer relação com a percepção humana ou com outros objetos. Os objetos sempre se retiram, parcialmente, de todas as relações: o que uma coisa é em si mesma nunca é plenamente capturado pelo modo como aparece ou interage.
O trabalho ecológico de Morton desenvolve esses insights em direções singulares. Seu conceito de 'estranho estrangeiro' — entidades que não são nem plenamente conhecidas nem plenamente outras — reflete a tese OOO de que todas as entidades são inquietantes, se retiram e são irredutíveis a seus perfis relacionais.
Trabalhos Recentes
Humankind: Solidarity with Nonhuman People (2017) estende as preocupações éticas de Morton para uma política de solidariedade que inclui entidades não humanas — animais, plantas, fungos, bactérias e até a matéria inorgânica — no âmbito da consideração ética. Being Ecological (2018) é uma introdução mais acessível ao pensamento ecológico de Morton para o público geral. Morton leciona na Rice University em Houston. Veio a público como pessoa transgênero em 2019.
Métodos
Citações Notáveis
"Os hiperobjetos são reais, mas não estão 'lá fora'. Estão aqui. Estamos dentro deles. Eles estão dentro de nós." — Hiperobjetos (2013)
"Ecologia sem natureza significa livrar-se da ideia de natureza como um recipiente prístino, uma superfície lisa sobre a qual as coisas acontecem." — Ecologia Sem Natureza (2007)
"Quanto mais você souber sobre a malha, mais ela o perturbará. É isso que é a ecologia sombria: o sentimento perturbador de que você começou a conhecer algo real." — Ecologia Sombria (2016)
"As coisas são reais, mas nunca estão plenamente presentes. Sempre se retiram. Isso não é uma falha do conhecimento, mas uma característica das coisas." — Realist Magic: Objects, Ontology, Causality (2013)
"Coexistência não é harmonia. É algo mais estranho e mais exigente: o reconhecimento de que compartilhamos a malha com entidades que não podemos conhecer plenamente." — Humanidade (2017)
Obras Principais
- Shelley and the Revolution in Taste Livro (1994)
- Ecology Without Nature Livro (2007)
- The Ecological Thought Livro (2010)
- Hyperobjects: Philosophy and Ecology After the End of the World Livro (2013)
- Realist Magic: Objects, Ontology, Causality Livro (2013)
- Dark Ecology: For a Logic of Future Coexistence Livro (2016)
- Humankind: Solidarity with Nonhuman People Livro (2017)
- Being Ecological Livro (2018)
- Hell: In Search of a Christian Ecology Livro (2021)
Influenciado por
- Bruno Latour · Influência Intelectual
- Martin Heidegger · Influência Intelectual
- Jacques Derrida · Influência Intelectual
Fontes
- Morton, Timothy. Ecology Without Nature: Rethinking Environmental Aesthetics. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2007.
- Morton, Timothy. Hyperobjects: Philosophy and Ecology After the End of the World. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2013.
- Morton, Timothy. Dark Ecology: For a Logic of Future Coexistence. New York: Columbia University Press, 2016.
- Harman, Graham. Tool-Being: Heidegger and the Metaphysics of Objects. Chicago: Open Court, 2002.
- Harman, Graham. Object-Oriented Ontology: A New Theory of Everything. London: Pelican, 2018.
- Bryant, Levi, Nick Srnicek, and Graham Harman (eds.). The Speculative Turn: Continental Materialism and Realism. Melbourne: re.press, 2011.
- Derrida, Jacques. Of Grammatology. Trans. Gayatri Chakravorty Spivak. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1976.
- Clark, Timothy. Ecocriticism on the Edge: The Anthropocene as a Threshold Concept. London: Bloomsbury, 2015.
- Nixon, Rob. Slow Violence and the Environmentalism of the Poor. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2011.