Moses Mendelssohn
Moses Mendelssohn foi um filósofo judeu-alemão do Iluminismo cujo trabalho foi pioneiro na reconciliação entre a tradição judaica e o racionalismo iluminista, valendo-lhe o título de 'pai da Haskalá' (Iluminismo Judaico). Seu *Jerusalém* (1783) argumentou pela separação entre Estado e Igreja e pela compatibilidade do judaísmo com a religião natural, enquanto seu *Fédon* (1767) — um diálogo moderno sobre a imortalidade da alma à maneira de Platão — fez dele o filósofo alemão mais celebrado de seu tempo, ao lado de Kant. Como demonstração viva de que a vida intelectual e cívica judaica era compatível com o Bürgertum alemão, Mendelssohn personificou a esperança da Haskalá pela emancipação judaica.
Ideias Principais
Contribuições Principais
- ● Articulou o primeiro argumento filosófico sistemático pela separação entre Estado e Igreja em *Jerusalém* (1783), distinguindo a autoridade civil (que pode coagir ações) da autoridade religiosa (que diz respeito à crença e não pode legitimamente coagir)
- ● Distinguiu o judaísmo como uma religião de *legislação* revelada e não de *doutrina* revelada, permitindo que judeus praticantes participassem plenamente na esfera pública iluminista mantendo suas obrigações religiosas particulares
- ● Modernizou os argumentos platônicos pela imortalidade da alma no *Fédon* (1767), tornando-os acessíveis a um amplo público europeu e demonstrando a profundidade filosófica alcançável na prosa vernácula alemã
- ● Fundou a *Haskalá* (Iluminismo Judaico) por meio de sua tradução alemã do Pentateuco e do comentário *Biur*, que levaram tanto a língua alemã quanto a crítica iluminista às comunidades judaicas tradicionais
- ● Demonstrou, por sua própria carreira e escritos, que a vida intelectual judaica era compatível com a cultura iluminista, fornecendo o argumento central para a emancipação civil judaica
- ● Desenvolveu uma análise influente da sensação estética e sua relação com o prazer e a beleza nas *Cartas sobre as Sensações* e no ensaio 'Sobre o Sublime e o Ingênuo', contribuindo para a emergente filosofia alemã da estética
- ● Venceu o prêmio da Academia de Berlim com seu ensaio sobre a evidência matemática na metafísica (1764), estabelecendo o método adequado para o raciocínio metafísico como distinto tanto da demonstração matemática quanto da observação empírica
Questões Centrais
Teses Principais
- ✓ O judaísmo é uma legislação revelada, não uma religião revelada — contém leis divinamente ordenadas que regem a conduta judaica, mas não doutrinas reveladas que substituam a teologia natural racional
- ✓ O Estado pode usar a coerção para proteger direitos e fazer cumprir contratos, mas não tem autoridade legítima sobre a convicção religiosa, que não pode ser coagida sem tornar-se desprovida de sentido
- ✓ A alma é uma substância simples, unificada e ativa; como a simplicidade exclui a dissolução, a alma é necessariamente imortal
- ✓ A religião natural — a existência de Deus, a providência divina e a imortalidade da alma — é acessível a todos os seres humanos racionais por meio da razão, e constitui o terreno comum de toda religião genuína
- ✓ Os judeus têm direito à plena cidadania sem renunciar às suas práticas religiosas, porque a lei judaica rege a conduta privada e não conflita com a ética racional universal que serve de base à sociedade civil
- ✓ O prazer estético decorre da cognição 'confusa' ou 'sensorial' da perfeição — a percepção de harmonia, proporção e unidade de uma maneira que envolve o sentimento tanto quanto o intelecto
Biografia
Infância em Dessau e Chegada a Berlim
Moses Mendelssohn nasceu em 6 de setembro de 1729, em Dessau, no principado de Anhalt, filho de um escriba da Torá chamado Mendel Heymann. Recebeu uma educação judaica tradicional completa, estudando o Talmude sob a orientação do Rabino David Fränkel, cujo comentário ao Talmude de Jerusalém ele ajudou a carregar quando Fränkel se mudou para Berlim em 1743. O jovem Moses — com quatorze anos, percorrendo boa parte do caminho a pé — seguiu seu mestre até a capital prussiana.
Berlim em 1743 era uma cidade de contrastes. Frederico, o Grande, presidia uma corte animada pela cultura francesa e pelas ideias iluministas, enquanto a comunidade judaica vivia sob severas restrições legais. Mendelssohn chegou quase sem dinheiro e sobreviveu inicialmente da caridade da congregação de Fränkel. Educou-se prodigiosamente por conta própria, aprendendo alemão, latim, grego, inglês, francês, matemática e filosofia — em particular os sistemas racionalistas de Leibniz e Wolff.
Formação Intelectual e Amizade com Lessing
Em 1750, Mendelssohn tornou-se tutor na casa do fabricante de seda Isaac Bernhard, tornando-se eventualmente seu guarda-livros e, depois, sócio comercial. Essa posição lhe conferiu o precário estatuto jurídico de 'judeu protegido' (Schutzjude) — uma autorização de residência em Berlim que podia ser revogada a qualquer momento.
O evento mais consequente da vida intelectual de Mendelssohn ocorreu em 1754, quando conheceu Gotthold Ephraim Lessing, já então o mais brilhante jovem escritor da Alemanha. Os dois tornaram-se amigos íntimos e colaboradores. Lessing, reconhecendo os dons filosóficos de Mendelssohn, providenciou a publicação anônima de suas Conversações Filosóficas (Philosophische Gespräche, 1755), uma defesa da filosofia leibniziana. Lessing também escreveu sua famosa peça Nathan, o Sábio (1779) tendo Mendelssohn como modelo para o protagonista — um judeu sábio e tolerante que encarna a humanidade iluminista.
As Cartas sobre as Sensações (Briefe über die Empfindungen, 1755) de Mendelssohn o estabeleceram nos círculos literários alemães como filósofo da experiência estética. Seu ensaio Sobre a Evidência nas Ciências Metafísicas (Über die Evidenz in Metaphysischen Wissenschaften, 1764) ganhou o primeiro prêmio da Academia de Berlim — derrotando, entre outros, o ensaio de Kant sobre o mesmo tema — e o tornou famoso em toda a Europa.
O Fédon e a Fama Popular
Em 1767, Mendelssohn publicou o Fédon, ou Sobre a Imortalidade da Alma — uma modernização do Fédon de Platão na qual os argumentos antigos pela imortalidade da alma são complementados e revistos à luz do racionalismo leibniziano. Escrito em prosa alemã elegante e explicitamente concebido para um público culto não especialista, o Fédon foi uma sensação imediata, traduzido para o francês, o inglês, o holandês, o italiano, o dinamarquês, o russo e o hebraico. Fez de Mendelssohn o filósofo alemão mais lido dos anos 1770, celebrado em toda a Europa como 'o Sócrates alemão'.
Os argumentos centrais do livro giram em torno da simplicidade e unidade da alma (ela não pode se dispersar como a matéria e, portanto, não pode morrer), de sua atividade essencial como substância pensante e da ordem moral e teleológica da criação, que exige a contínua perfeição da alma após a morte.
O Caso Lavater e a Identidade Judaica
Em 1769, o pastor zurichense Johann Caspar Lavater desafiou publicamente Mendelssohn a refutar os argumentos do apologista cristão Charles Bonnet — que Lavater acabara de traduzir para o alemão e dedicara a Mendelssohn — ou a se converter ao cristianismo. O desafio colocou Mendelssohn em uma posição impossível: argumentar publicamente contra o cristianismo arriscava inflamar a opinião pública cristã, ao passo que a conversão era impensável.
A resposta de Mendelssohn — composta com extraordinária delicadeza — recusou-se a entrar em polêmica religiosa pública, ao mesmo tempo em que defendia o judaísmo como uma religião de razão e revelação. O episódio cristalizou seu pensamento sobre a relação entre o judaísmo e a religião racional, e ele passou a dedicar crescente energia à defesa da dignidade intelectual judaica e à defesa dos direitos civis dos judeus.
A Tradução Bíblica e a Haskalá
Na década de 1780, Mendelssohn empreendeu seu projeto mais ambicioso: uma nova tradução alemã do Pentateuco (com Salmos e outros livros acrescentados posteriormente), acompanhada de um comentário em hebraico (Biur). A tradução foi impressa em caracteres hebraicos — permitindo que judeus que não sabiam ler o alfabeto alemão adquirissem o alemão — e foi concebida simultaneamente para colocar os judeus em contato com a cultura alemã e para demonstrar aos alemães a profundidade literária e filosófica das Escrituras Hebraicas. Tornou-se o texto fundador da Haskalá — o Iluminismo Judaico — moldando gerações de intelectuais judeus, de Heine a Freud.
Jerusalém e a Filosofia da Religião e da Política
Jerusalém, ou Sobre o Poder Religioso e o Judaísmo (1783) é sua obra-prima filosófica. Em resposta a um panfleto anônimo que parecia desafiar a consistência de suas posições públicas, Mendelssohn desenvolveu um argumento abrangente em duas partes.
A primeira parte defende a separação entre Estado e Igreja: a sociedade civil repousa nos direitos de propriedade e no contrato social; ela pode usar meios coercitivos para impor seus objetivos. A religião, ao contrário, diz respeito a convicções e ações dirigidas a Deus; como a crença religiosa genuína não pode ser coagida, o Estado não tem autoridade legítima sobre a vida religiosa. Nem a Igreja nem o Estado podem excomungar cidadãos ou privá-los de direitos civis por motivos religiosos.
A segunda parte argumenta que o judaísmo não é uma religião no sentido de doutrina revelada — ele não contém dogmas revelados que os membros devam acreditar sob pena de exclusão. Em vez disso, o judaísmo é um sistema de legislação revelada — uma lei divina que governa as ações do povo judeu — combinado com uma religião natural acessível a todos os seres humanos racionais. Essa distinção permitiu a Mendelssohn argumentar que os judeus podiam ser cidadãos plenos dos Estados iluministas (cuja esfera pública era governada pela religião natural e pela ética racional) enquanto continuavam a observar as leis particulares de sua tradição em âmbito privado.
Jerusalém foi imediatamente reconhecido como uma obra-prima do pensamento político iluminista. Kant o elogiou como 'a proclamação de uma grande reforma'.
Últimos Anos e a Controvérsia do Panteísmo
Em seus últimos anos, Mendelssohn foi arrastado para o Pantheismusstreit (controvérsia do panteísmo) desencadeado pela afirmação de F.H. Jacobi de que Lessing teria confessado em privado ser spinozista. Mendelssohn, defendendo a reputação de seu falecido amigo, publicou Horas Matinais (Morgenstunden, 1785), argumentando contra o spinozismo e em favor do teísmo racionalista que sempre defendera. Morreu em 4 de janeiro de 1786, exausto pela controvérsia, ainda trabalhando em sua resposta a Jacobi.
Legado
O legado de Mendelssohn é múltiplo e controvertido. Como filósofo, foi um dos últimos grandes representantes do racionalismo de Leibniz e Wolff, um esteta significativo e o autor de uma teologia política que antecipou os argumentos liberais posteriores em favor da tolerância religiosa. Como intelectual judeu, personificou — e ajudou a criar — a possibilidade da participação judaica na cultura europeia. Seu neto foi Felix Mendelssohn Bartholdy, o compositor.
A trajetória de sua família — Felix foi batizado, e os próprios filhos de Moses abandonaram em grande parte o judaísmo — tornou-se para muitos o símbolo do custo trágico da assimilação. Gershom Scholem e outros debateram se o compromisso de Mendelssohn entre o universalismo iluminista e a particularidade judaica era intelectualmente coerente ou inerentemente instável. Independentemente da resposta a essa questão, Mendelssohn permanece uma figura indispensável para compreender o encontro moderno entre o judaísmo e a modernidade ocidental.
Métodos
Citações Notáveis
"Busca a verdade; ama a beleza; deseja o bem; faz o melhor." — Jerusalém (1783)
"Creio que o judaísmo nada sabe de uma religião revelada no sentido em que os cristãos definem esse termo. Os israelitas possuem uma legislação divina — leis, mandamentos, estatutos, regras de conduta, instrução sobre a vontade de Deus e sobre o que devem fazer para alcançar a salvação temporal e eterna." — Jerusalém (1783)
"A união dos corações é virtude; a união das mãos é contrato. O Estado só pode ordenar ações; a religião só pode aconselhar convicções." — Jerusalém (1783)
"Adota os costumes e a constituição civil do país em que vives, mas mantém firmemente também a religião de teus pais." — Jerusalém (1783)
"A alma não é uma substância que começa a pensar, mas uma substância incapaz de cessar de pensar." — Fédon (1767)
"Felicito a raça humana. Esses fatos provam que humanidade e filosofia não são mutuamente excludentes." — Carta a Thomas Abbt, 1766
Obras Principais
- Philosophical Conversations Diálogo (1755)
- Letters on Sentiments Carta (1755)
- On Evidence in Metaphysical Sciences Ensaio (1764)
- Phaedon, or On the Immortality of the Soul Diálogo (1767)
- On the Sublime and the Naïve in the Fine Arts Ensaio (1771)
- Jerusalem, or On Religious Power and Judaism Tratado (1783)
- Pentateuch Translation and Biur Commentary Livro (1783)
- Morning Hours, or Lectures on the Existence of God Palestra (1785)
- To Lessing's Friends Ensaio (1786)
Influenciou
- Immanuel Kant · Contemporâneo/Par
Influenciado por
- Gottfried Wilhelm Leibniz · Influência Intelectual
Fontes
- Jerusalem, or On Religious Power and Judaism (trans. Allan Arkush, intro. Alexander Altmann, 1983)
- Phaedon, or The Death of Socrates (trans. Charles Cullen, 1789)
- Alexander Altmann, Moses Mendelssohn: A Biographical Study (1973)
- Allan Arkush, Moses Mendelssohn and the Enlightenment (1994)
- David Sorkin, Moses Mendelssohn and the Religious Enlightenment (1996)
- Michah Gottlieb, Faith and Freedom: Moses Mendelssohn's Theological-Political Thought (2011)
- The Cambridge Companion to Moses Mendelssohn (ed. Reinier Munk, 2011)
- Shmuel Feiner, The Jewish Enlightenment (2002)