Martha Nussbaum
Martha Nussbaum é uma filósofa norte-americana cuja abordagem das capacidades para a justiça, o desenvolvimento e a dignidade humana teve um impacto transformador na filosofia política, nas políticas internacionais de desenvolvimento, na ética e no direito. Combinando filosofia analítica rigorosa com profundo engajamento com as humanidades, o pensamento político clássico e comparado, ela argumentou que a justiça requer que toda pessoa tenha acesso a um conjunto de capacidades humanas centrais necessárias para uma vida digna.
Ideias Principais
Contribuições Principais
- ● Desenvolveu a abordagem das capacidades para a justiça: toda pessoa deve ter acesso a capacidades centrais necessárias para uma vida digna
- ● Especificou uma lista de dez capacidades humanas centrais que definem um limiar de justiça para qualquer sociedade decente
- ● Argumentou que as emoções são julgamentos cognitivo-avaliativos, não meros impulsos, com implicações importantes para a filosofia moral e política
- ● Demonstrou a relevância filosófica da literatura como forma de raciocínio ético que cultiva a percepção moral
- ● Analisou a vulnerabilidade da vida boa à fortuna na filosofia e na tragédia gregas, desafiando a busca pela invulnerabilidade
- ● Estendeu a abordagem das capacidades para a deficiência, o bem-estar animal e a justiça global, abordando limitações da tradição do contrato social
- ● Defendeu o papel das humanidades na educação democrática contra modelos puramente técnicos e vocacionais
Questões Centrais
Teses Principais
- ✓ A justiça exige garantir a toda pessoa um nível limiar de dez capacidades humanas centrais, não apenas direitos formais ou bem-estar agregado
- ✓ As emoções são formas de julgamento avaliativo sobre o que importa para nosso florescimento, não impulsos irracionais a serem suprimidos
- ✓ A literatura cultiva a percepção moral, a empatia e a atenção à particularidade de maneiras que o argumento abstrato sozinho não consegue
- ✓ A vida boa é constitutivamente vulnerável à fortuna: essa vulnerabilidade não é meramente uma deficiência, mas possibilita muitas excelências humanas
- ✓ O nojo e a vergonha são bases pouco confiáveis e perigosas para a regulação jurídica
- ✓ A tradição do contrato social não consegue abordar adequadamente a deficiência, o bem-estar animal ou a justiça global; a abordagem das capacidades pode
- ✓ A educação democrática requer as humanidades — filosofia, literatura, artes — e não apenas formação técnica
Biografia
Vida Inicial e Formação
Martha Craven Nussbaum nasceu em 6 de maio de 1947, na cidade de Nova York. Cresceu em uma família abastada da Filadélfia — seu pai era advogado — e descreveu sua criação privilegiada como tendo-lhe dado tanto uma educação clássica quanto uma consciência da complacência moral que pode acompanhar o privilégio.
Estudou teatro e ciências clássicas na Universidade de Nova York antes de prosseguir com estudos de pós-graduação em filosofia clássica em Harvard, onde obteve o M.A. e o Ph.D. Tornou-se a primeira mulher a ocupar uma Junior Fellowship em Harvard, e lecionou em Harvard, Brown e Oxford antes de ingressar na Universidade de Chicago em 1995, onde ocupa cargos tanto na Faculdade de Direito quanto no Departamento de Filosofia (Ernst Freund Distinguished Service Professor of Law and Ethics).
Filosofia Clássica e Literatura
O trabalho inicial de Nussbaum a estabeleceu como uma das principais estudiosas da filosofia grega antiga. A Fragilidade do Bem: Fortuna e Ética na Tragédia e Filosofia Gregas (1986) examinou como a tragédia e a filosofia gregas (Platão, Aristóteles) abordavam a vulnerabilidade da vida boa à fortuna. Contra a tradição platônico-kantiana que buscava tornar a vida boa invulnerável à contingência, Nussbaum argumentou — apoiando-se em Aristóteles e nos tragediógrafos — que a vulnerabilidade à perda, ao acaso e aos aspectos incontroláveis da existência humana não é meramente uma deficiência, mas é constitutiva de muitas das mais altas excelências humanas.
Amor e Conhecimento (1990) e Justiça Poética (1995) desenvolveram uma defesa filosófica distintiva da literatura como forma de raciocínio ético — argumentando que os romances (particularmente os de Henry James e Charles Dickens) cultivam a percepção moral, a empatia e a capacidade de atenção à particularidade das situações humanas de maneiras que o argumento filosófico abstrato sozinho não consegue.
A Abordagem das Capacidades
A contribuição mais influente de Nussbaum é a abordagem das capacidades para a justiça e o desenvolvimento humano, desenvolvida em Mulheres e Desenvolvimento Humano (2000), Fronteiras da Justiça (2006) e Criar Capacidades (2011). Apoiando-se na estrutura anterior das capacidades de Amartya Sen e na filosofia política aristotélica, Nussbaum argumenta que a justiça requer que toda pessoa tenha acesso a um conjunto de capacidades humanas centrais — não apenas direitos formais ou bem-estar agregado, mas oportunidades reais de funcionar de maneiras essenciais para uma vida digna.
Nussbaum especifica uma lista de dez capacidades centrais: vida; saúde corporal; integridade corporal; sentidos, imaginação e pensamento; emoções; razão prática; afiliação; outras espécies; lazer; e controle sobre o próprio ambiente (político e material). Essas capacidades definem um limiar mínimo de justiça: qualquer sociedade que deixe de garanti-las a todos os seus cidadãos fica abaixo do nível de decência.
A abordagem foi adotada pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento como estrutura para avaliar o desenvolvimento para além do PIB.
Emoções e Filosofia Política
Nussbaum fez grandes contribuições à análise filosófica das emoções. Perturbações do Pensamento: A Inteligência das Emoções (2001) desenvolveu uma teoria cognitivo-avaliativa neo-estoica: as emoções não são meros impulsos animais, mas formas de julgamento avaliativo sobre coisas que consideramos importantes para nosso florescimento.
Esconder-se da Humanidade (2004) argumentou que o nojo e a vergonha são bases pouco confiáveis para o direito, enquanto Emoções Políticas (2013) explorou como as democracias liberais podem cultivar o amor cívico e a compaixão sem se tornarem repressivas.
Nussbaum está entre os filósofos vivos mais premiados, tendo recebido o Prêmio Kyoto, o Prêmio Berggruen, o Prêmio Holberg e dezenas de títulos honorários.
Métodos
Citações Notáveis
"Ser um bom ser humano é ter um tipo de abertura ao mundo, uma capacidade de confiar em coisas incertas além do seu controle." — A Fragilidade do Bem
"As capacidades não são apenas habilidades residindo dentro de uma pessoa, mas também as liberdades e oportunidades criadas por uma combinação de capacidades pessoais e pelo ambiente político, social e econômico." — Criar Capacidades
"A imaginação é um ingrediente essencial da compaixão, e a compaixão é um ingrediente essencial da justiça." — Justiça Poética
"Ser cidadão do mundo não requer que se abra mão de identificações locais, que podem ser uma fonte de grande riqueza na vida." — Cultivating Humanity
"O nojo tem sido usado ao longo da história para excluir e subordinar grupos de pessoas — mulheres, judeus, pessoas gay, dalits, pessoas com deficiência." — Esconder-se da Humanidade
Obras Principais
- The Fragility of Goodness Livro (1986)
- Love's Knowledge Livro (1990)
- The Therapy of Desire Livro (1994)
- Women and Human Development Livro (2000)
- Upheavals of Thought Livro (2001)
- Hiding from Humanity Livro (2004)
- Frontiers of Justice Livro (2006)
- Creating Capabilities Livro (2011)
- Justice for Animals Livro (2022)
Influenciado por
- John Rawls · influence
- Philippa Foot · influence
- Amartya Sen · influence
- Bernard Williams · Influência Intelectual
Fontes
- Stanford Encyclopedia of Philosophy
- The Cambridge Companion to Nussbaum (forthcoming)
- Martha Nussbaum: Ethics and Political Philosophy (Pettersen, 2019)
- Nussbaum and Law (Dixon & Nussbaum, 2012)