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Filósofos / Mário Ferreira dos Santos
Moderno

Mário Ferreira dos Santos

1907 – 1968
Tietê, São Paulo, Brazil → São Paulo, Brazil
Enciclopedismo metaphysics ontology philosophy of mathematics ethics logic cosmology
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Mário Ferreira dos Santos foi um filósofo autodidata brasileiro de alcance extraordinário cujo projeto filosófico enciclopédico — abrangendo vinte e oito volumes de uma projetada *Enciclopédia das Ciências Filosóficas e Naturais* — buscou uma síntese sistemática de toda a história da filosofia ocidental, de Pitágoras a Aquino e Hegel, com base em uma 'filosofia concreta' fundada em uma metafísica neo-pitagórica de número, proporção e harmonia. Um dos filósofos brasileiros mais prolíficos do século XX, Ferreira dos Santos trabalhou em grande medida fora das instituições acadêmicas, produzindo um corpus de filosofia sistemática que permaneceu amplamente invisível ao establishment filosófico brasileiro durante sua vida, mas que tem atraído crescente atenção acadêmica postumamente.

Ideias Principais

Filosofia concreta, metafísica pitagórica, filosofia sistemática enciclopédica, lógica tensional, número e proporção, tomismo neo-escolástico, filosofia da natureza

Contribuições Principais

  • Desenvolveu a 'filosofia concreta' — uma metafísica sistemática fundada em princípios neo-pitagóricos de número, proporção e estrutura harmônica
  • Completou vinte e oito volumes da Enciclopédia das Ciências Filosóficas e Naturais, o projeto filosófico sistemático mais ambicioso da história intelectual brasileira
  • Desenvolveu a 'lógica tensional' como alternativa à lógica aristotélica formal, captando a polaridade dinâmica das entidades reais
  • Articulou uma ética jusnaturalista neo-escolástica rigorosa fundada na metafísica clássica da natureza e da teleologia
  • Demonstrou a possibilidade de filosofia sistemática séria fora das instituições acadêmicas, por formação puramente autodidática
  • Preservou e estendeu a tradição matemática pitagórico-platônica no interior da filosofia brasileira

Questões Centrais

Qual é a estrutura ontológica última da realidade e como ela se relaciona com a proporção e a harmonia matemáticas?
Pode-se construir uma filosofia sistemática completa, abrangendo lógica, ontologia, cosmologia, ética e estética, sobre bases concretas em vez de abstratas?
Qual é a relação entre número e ser — entre estrutura matemática e realidade física?
Como a grande tradição da filosofia sistemática ocidental (Platão, Aristóteles, Aquino) pode ser recuperada e estendida para os tempos modernos?
Quais são os limites da lógica formal e pode uma 'lógica tensional' captar melhor a estrutura dinâmica do ser real?

Teses Principais

  • Número e proporção não são entidades formais abstratas, mas a estrutura ontológica real da realidade — a 'arquitetura' do cosmos
  • O abandono pela filosofia acadêmica moderna da ambição sistemática em favor da especialização representa um empobrecimento filosófico
  • A estrutura tensional da realidade — a polaridade dinâmica de tendências opostas — requer uma lógica além da contradição aristotélica formal
  • A filosofia concreta une as tradições clássicas do pitagorismo, do platonismo e do aristotelismo com uma filosofia da natureza adequada à ciência moderna
  • A ética jusnaturalista, fundada na estrutura teleológica concreta da natureza humana, fornece um fundamento moral mais adequado do que o formalismo kantiano ou o cálculo utilitário

Biografia

Formação Autodidática

Mário Ferreira dos Santos nasceu em 25 de julho de 1907, em Alcântara, no estado do Maranhão, Brasil. Teve pouca escolaridade formal, e sua formação foi quase inteiramente autodidática — circunstância que marcaria tanto a originalidade quanto a qualidade irregular de sua obra filosófica. Sua família mudou-se para São Paulo durante sua infância, e foi lá que desenvolveu sua extraordinária capacidade de estudo sistemático.

Ferreira dos Santos foi um leitor polimático que aprendeu latim, grego, matemática e história da filosofia por estudo independente. Trabalhou como jornalista e escritor comercial durante boa parte de sua vida, sustentando seu trabalho filosófico por meio dessas atividades em vez de uma posição acadêmica — circunstância que ao mesmo tempo o libertou de constrangimentos institucionais e o privou dos interlocutores e da retroalimentação por pares que a filosofia acadêmica proporciona.

Suas influências intelectuais precoces foram a tradição tomista da filosofia católica (particularmente por meio do renascimento neo-escolástico associado a Jacques Maritain e Étienne Gilson), os grandes filósofos gregos (especialmente Platão, Aristóteles e os pitagóricos) e a tradição idealista alemã. Foi também profundamente influenciado pelo positivismo — particularmente as aspirações enciclopédicas de Comte — como contraponto negativo contra o qual desenvolver sua própria 'filosofia concreta'.

O Projeto Enciclopédico

O projeto central de Ferreira dos Santos foi a Enciclopédia das Ciências Filosóficas e Naturais, uma obra sistemática extraordinariamente ambiciosa da qual completou vinte e oito volumes entre os anos 1950 e sua morte em 1968. O projeto visava fornecer um relato completo e sistemático do conhecimento filosófico, da lógica e da matemática passando pela ontologia, cosmologia, antropologia, ética e estética, organizado segundo os princípios de sua própria 'filosofia concreta'.

O modelo para essa ambição enciclopédica era explicitamente os grandes filósofos sistemáticos da tradição — Aristóteles, Aquino, Hegel — cujos sistemas abrangentes Ferreira dos Santos considerava modelos de seriedade filosófica que haviam sido abandonados pela filosofia profissional do século XX em favor da especialização estreita. Contra a fragmentação da filosofia acadêmica moderna, buscava restaurar a ideia da filosofia como ciência unificada — mas em uma base nova e concreta (em vez de formalmente abstrata).

Filosofia Concreta e Metafísica Pitagórica

O centro filosófico do sistema de Ferreira dos Santos é o que ele chama de 'filosofia concreta' — uma filosofia fundada não na abstração formal nem na sensação empírica, mas nas estruturas concretas do ser tal como reveladas por uma metafísica neo-pitagórica.

Para Ferreira dos Santos, seguindo uma antiga tradição pitagórica, número e proporção não são entidades matemáticas abstratas, mas a estrutura ontológica real da realidade. A tradição pitagórica — de Pitágoras ao Timeu de Platão, a Boécio e à tradição aritmética pitagórica medieval — sustentava que a harmonia do cosmos é expressável em razões numéricas: os intervalos musicais (oitava = 2:1, quinta = 3:2, quarta = 4:3), as proporções dos corpos vivos, os períodos orbitais dos planetas. Para Ferreira dos Santos, essa tradição captura algo filosoficamente profundo: a correspondência estrutural profunda entre a razão matemática e a realidade física.

A filosofia concreta, tal como ele a desenvolve, é uma filosofia que leva essa correspondência a sério — que não se retira das estruturas concretas da natureza para o puro formalismo, mas lê as estruturas formais da matemática como reveladoras da estrutura ontológica da realidade. Nesse sentido, seu projeto é uma forma de platonismo matemático embutido em uma metafísica clássica de participação e analogia.

O Método Filosófico: Lógica Tensional

Ferreira dos Santos desenvolveu o que chamou de 'lógica tensional' como alternativa à lógica formal de seu tempo. Sua crítica à lógica aristotélica tal como tradicionalmente formulada é que ela trata a contradição como absoluta: o princípio de não-contradição é tomado como o princípio ontológico último.

Para Ferreira dos Santos, a realidade é caracterizada pela tensão — pelo jogo dinâmico de tendências opostas que constituem o ser real. Essa estrutura tensional não é uma contradição lógica, mas uma polaridade dinâmica: polos positivo e negativo, tese e antítese, que constituem entidades reais por meio de sua interação. O modelo aqui é a dialética hegeliana, mas transposta para uma tonalidade neo-pitagórica: o movimento dialético da realidade é governado por razões harmônicas, não pelo desdobramento progressivo do Espírito Absoluto.

Recepção e Legado

Mário Ferreira dos Santos faleceu em 9 de dezembro de 1968, em São Paulo, tendo completado o núcleo de seu projeto enciclopédico. Sua obra recebeu quase nenhum reconhecimento do establishment filosófico acadêmico brasileiro durante sua vida. Postumamente, tem atraído crescente atenção de estudiosos brasileiros interessados na tradição filosófica brasileira, de tomistas e neo-escolásticos, e de interessados em filosofia matemática e tradições pitagóricas. É hoje reconhecido como uma das vozes filosóficas mais ambiciosas e originais da história intelectual brasileira, ainda que a avaliação acadêmica de seu legado permaneça dividida.

Métodos

encyclopedic systematic method neo-Pythagorean mathematical philosophy Thomistic-scholastic argumentation comparative history of philosophy tensional dialectics

Citações Notáveis

"A filosofia concreta parte do concreto, tenta compreendê-lo em toda a sua riqueza e só então eleva-se às abstrações que o explicam sem o trair." — Filosofia e Cosmovisão (1960)
"O número não é apenas uma abstração matemática: é o princípio organizador do cosmo, a razão pela qual a natureza tem ordem e beleza." — Ontologia e Cosmologia (1955)
"A lógica tensional reconhece que o ser real é sempre um campo de forças em tensão — não uma identidade estática, mas uma dinâmica de polaridades." — Lógica e Dialética (1958)
"O enciclopedismo filosófico não é vaidade erudita: é a exigência que a própria realidade faz ao pensamento que pretende compreendê-la integralmente." — Convite à Filosofia (1962)

Obras Principais

  • Ontologia e Cosmologia Livro (1955)
  • Filosofia Concreta Livro (1957)
  • Enciclopédia das Ciências Filosóficas e Naturais (28 vols.) Livro (1957)
  • Lógica e Dialética Livro (1958)
  • Filosofia e Cosmovisão Livro (1960)
  • Tratado de Simbólica Livro (1960)
  • Convite à Filosofia Livro (1962)
  • Pitágoras e o Tema do Número Livro (1965)
  • O Homem perante o Infinito Livro (1966)

Influenciou

Fontes

  • Ferreira dos Santos, Mário. Filosofia Concreta. São Paulo: Logos, 1957.
  • Ferreira dos Santos, Mário. Ontologia e Cosmologia. São Paulo: Logos, 1955.
  • Ferreira dos Santos, Mário. Pitágoras e o Tema do Número. São Paulo: Logos, 1965.
  • Crippa, Adolpho. As Idéias Filosóficas no Brasil. São Paulo: Convívio, 1978.
  • Paim, Antônio. História das Idéias Filosóficas no Brasil. São Paulo: Grijalbo, 1967.
  • Vita, Luís Washington. Antologia do Pensamento Social e Político no Brasil. São Paulo: Grijalbo, 1968.
  • Gomes, Nelson Gonçalves. 'Mário Ferreira dos Santos e a tradição pitagórica.' Síntese Filosófica 4 (1988): 23–41.
  • Reale, Miguel. Filosofia em São Paulo. São Paulo: Grijalbo, 1962.

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