Leonardo Boff
Leonardo Boff é um teólogo e filósofo franciscano brasileiro que foi um dos principais arquitetos da teologia da libertação na América Latina e se tornou subsequentemente uma das vozes mais influentes na filosofia ecológica e na ecoteologia globalmente. Seu *Jesus Cristo Libertador* (1972) aplicou o método hermenêutico da teologia da libertação à cristologia — lendo o Jesus histórico a partir da perspectiva dos pobres —, enquanto sua posterior *Ecologia e Libertação* (1995) e *Grito da Terra, Grito dos Pobres* (1997) estenderam o referencial da libertação para a crise ecológica, argumentando que a dominação da natureza e a dominação dos pobres partilham uma lógica comum enraizada no paradigma ocidental moderno.
Ideias Principais
Contribuições Principais
- ● Cofundou a teologia da libertação na América Latina e desenvolveu sua aplicação à cristologia, argumentando que o Jesus histórico deve ser lido a partir da perspectiva dos pobres
- ● Produziu uma crítica eclesiológica fundacional do autoritarismo institucional católico em *Igreja: Carisma e Poder*, propondo as comunidades de base como uma forma eclesial mais autêntica
- ● Desenvolveu o conceito de *ecologia integral* — a tese de que a crise ecológica e a desigualdade social partilham uma raiz comum na lógica moderna de dominação — antecipando o *Laudato Si'* do Papa Francisco
- ● Estendeu o referencial da teologia da libertação da justiça social para a justiça ecológica em *Grito da Terra, Grito dos Pobres*
- ● Desenvolveu uma ecoteologia fundada na tradição franciscana de fraternidade com a criação e na hipótese Gaia, fornecendo um fundamento espiritual para a ética ecológica
- ● Contribuiu para a elaboração da Carta da Terra (2000) e participou de grandes cúpulas ambientais internacionais
Questões Centrais
Teses Principais
- ✓ O Jesus histórico fez uma 'opção preferencial pelos pobres' — uma identificação com os marginalizados que define o conteúdo do Evangelho — e qualquer cristologia que não registra isso é uma distorção
- ✓ A dominação da natureza e a dominação dos pobres procedem da mesma lógica ocidental moderna — não podem ser abordadas separadamente e exigem uma libertação ecológica e social integral
- ✓ A forma institucional hierárquica da Igreja Católica é uma contingência histórica, não uma necessidade teológica, e contradiz o caráter carismático e comunitário do cristianismo primitivo
- ✓ A própria Terra tem uma dimensão de subjetividade e sacralidade — Gaia não é meramente um recurso, mas um todo vivo que exige reconhecimento como sujeito moral
- ✓ A espiritualidade cristã autêntica é inerentemente ecológica: a fraternidade de Francisco de Assis com todas as criaturas não é um sentimento, mas uma percepção teológica sobre a origem criatural comum da humanidade e do mundo natural
Biografia
Vida e Formação Franciscana
Leonardo Boff nasceu em 14 de dezembro de 1938, em Concórdia, Santa Catarina, Brasil, numa família de descendência italiana. Ingressou na ordem franciscana e a tradição franciscana — com sua ênfase na pobreza de Jesus, na fraternidade de toda a criação e na identificação mística de Francisco de Assis com o mundo natural — tornaria-se um dos recursos intelectuais e espirituais mais profundos de seu pensamento maduro.
Completou sua tese doutoral em teologia na Universidade Ludwig Maximilian de Munique em 1970, sob Karl Rahner, o teólogo católico mais influente do século XX.
Jesus Cristo Libertador e a Teologia da Libertação
Boff retornou ao Brasil e publicou em 1972 Jesus Cristo Libertador, um documento fundador da teologia da libertação. Seu argumento era que a cristologia tradicional havia sido sistematicamente distorcida pela adaptação às necessidades dos poderosos. Uma cristologia adequada ao contexto latino-americano deve começar pela práxis do Jesus histórico: sua opção preferencial pelos pobres, sua proclamação do Reino de Deus como transformação das condições sociais presentes.
Seu Igreja: Carisma e Poder (1981) estendeu essa perspectiva crítica à eclesiologia. Boff argumentou que a Igreja Católica havia desenvolvido uma forma institucional autoritária e hierárquica em tensão com o caráter carismático e comunitário do cristianismo primitivo.
Silenciamento pelo Vaticano
A crítica eclesiológica de Boff o colocou em conflito direto com o Vaticano. Em 1985, a Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, presidida pelo Cardeal Joseph Ratzinger (mais tarde Papa Bento XVI), impôs-lhe um ano de 'silêncio obediente'. Em 1992, Boff tomou a decisão de deixar a ordem franciscana e o sacerdócio.
Ecoteologia e a Virada Ecológica
A partir do final dos anos 1980, Boff dedicou crescentemente suas energias intelectuais à filosofia ecológica e à ecoteologia. A conexão entre teologia da libertação e ecologia era, para ele, um aprofundamento de sua obra anterior: a mesma lógica de dominação que produz a exploração dos pobres também produz a exploração da natureza.
Seu conceito de ecologia integral — mais tarde retomado e popularizado pela encíclica Laudato Si' (2015) do Papa Francisco, que cita Boff extensivamente — argumenta que as crises ecológica, social e espiritual estão interligadas e só podem ser abordadas por meio de uma transformação integral.
Boff recebeu o Prêmio Right Livelihood (o 'Nobel Alternativo') em 2001 e participou das Cúpulas da Terra no Rio de Janeiro (1992) e em Joanesburgo (2002).
Métodos
Citações Notáveis
"Devemos ouvir dois clamores: o clamor dos pobres que sofrem injustiça e o clamor da Terra que sofre a depredação de seus bens." — Grito da Terra, Grito dos Pobres (1997)
"Jesus não era neutro. Tomou um partido — o partido dos doentes, dos pobres, dos pecadores e dos marginalizados pelo sistema religioso." — Jesus Cristo Libertador (1972)
"Tudo o que existe merece existir. Tudo o que vive merece viver." — Ecologia e Libertação (1995)
"A teologia feita a partir do subsolo da história é uma teologia que leva a sério a pergunta: o que significa falar de Deus diante do inocente que sofre?" — Graça Libertadora no Mundo (1979)
"Os pobres são o sacramento de Deus na história. Ao servi-los, encontramos Deus." — Jesus Cristo Libertador (1972)
Obras Principais
- Vida Religiosa e Secularização Livro (1971)
- Jesus Cristo Libertador Livro (1972)
- O Destino do Homem e do Mundo Livro (1973)
- Igreja: Carisma e Poder Livro (1981)
- Eclesiogenesis: The Base Communities Reinvent the Church Livro (1986)
- Trinity and Society Livro (1988)
- Ecology and Liberation: A New Paradigm Livro (1995)
- Cry of the Earth, Cry of the Poor Livro (1997)
- Virtudes para um outro mundo possível (3 vols.) Livro (2005)
- Francis of Assisi: A Model for Human Liberation Livro (2006)
Influenciado por
- Rubem Alves · influence
Fontes
- Boff, Leonardo. Jesus Christ Liberator: A Critical Christology for Our Time. Trans. Patrick Hughes. Maryknoll: Orbis Books, 1978.
- Boff, Leonardo. Church: Charism and Power. Trans. John W. Diercksmeier. New York: Crossroad, 1985.
- Boff, Leonardo. Cry of the Earth, Cry of the Poor. Trans. Phillip Berryman. Maryknoll: Orbis Books, 1997.
- Boff, Leonardo. Ecology and Liberation: A New Paradigm. Trans. John Cumming. Maryknoll: Orbis Books, 1995.
- Gutiérrez, Gustavo. A Theology of Liberation. Trans. Caridad Inda and John Eagleson. Maryknoll: Orbis Books, 1973.
- Smith, Christian. The Emergence of Liberation Theology. Chicago: University of Chicago Press, 1991.
- Pope Francis. Laudato Si': On Care for Our Common Home. Vatican City: Libreria Editrice Vaticana, 2015.
- Rowland, Christopher, ed. The Cambridge Companion to Liberation Theology. Cambridge: Cambridge University Press, 2007.
- Berry, Thomas. The Dream of the Earth. San Francisco: Sierra Club Books, 1988.
- Rahner, Karl. Foundations of Christian Faith. Trans. William V. Dych. New York: Crossroad, 1978.