Donald Davidson
Donald Davidson foi um filósofo analítico norte-americano cujo trabalho em filosofia da linguagem, filosofia da mente e teoria da ação estabeleceu algumas das posições mais importantes e debatidas da filosofia do século XX. Sua teoria holística do significado, o monismo anômalo na filosofia da mente e a teoria unificada da ação, da crença e da interpretação remodelaram a maneira como os filósofos pensam a relação entre linguagem, pensamento e realidade.
Ideias Principais
Contribuições Principais
- ● Propôs que uma teoria tarskiana da verdade pode funcionar como teoria do significado para a linguagem natural, eliminando significados como entidades
- ● Desenvolveu o monismo anômalo: eventos mentais são eventos físicos, mas não existem leis psicofsísicas estritas
- ● Argumentou que razões são causas da ação, reconciliando explicação racional e causal
- ● Formulou o princípio de caridade como restrição constitutiva da interpretação radical
- ● Criticou o dualismo esquema-conteúdo, minando o relativismo conceitual
- ● Introduziu uma ontologia sistemática de eventos e uma forma lógica para sentenças de ação
- ● Desenvolveu uma teoria holística da emergência do pensamento e da linguagem baseada na triangulação
Questões Centrais
Teses Principais
- ✓ Uma teoria do significado para uma língua é uma teoria tarskiana da verdade que atribui sistematicamente condições de verdade às sentenças
- ✓ Eventos mentais são idênticos a eventos físicos, mas descrições mentais não se reduzem a descrições físicas (monismo anômalo)
- ✓ Razões — crenças e desejos do agente — são causas das ações que racionalizam
- ✓ A interpretação exige o princípio de caridade: devemos pressupor que os falantes são em grande medida racionais e corretos
- ✓ O dualismo esquema-conteúdo é incoerente e, com ele, todas as formas de relativismo conceitual
- ✓ Não existe tal coisa como uma língua, se por língua entendemos uma estrutura compartilhada claramente definida — a língua é sempre reinterpretada
Biografia
Vida e Formação
Donald Herbert Davidson nasceu em 6 de março de 1917, em Springfield, Massachusetts. Cresceu em um ambiente cosmopolita e estudou inglês, literatura comparada e estudos clássicos em Harvard antes de se dedicar à filosofia. Obteve seu doutorado em Harvard em 1949, sob orientação de W.V.O. Quine, com uma dissertação sobre o Filebo de Platão. A influência de Quine — especialmente seu holismo sobre o significado e seu ceticismo em relação à distinção analítico-sintética — permaneceu uma referência constante no trabalho de Davidson, ainda que ele tenha se afastado de Quine em aspectos significativos.
Teoria da Ação
A primeira grande contribuição de Davidson foi sua teoria da ação, inaugurada com o influente ensaio "Ações, Razões e Causas" (1963). Contra a visão wittgensteiniana dominante de que as razões para agir são logicamente distintas das causas, Davidson argumentou que as razões (as crenças e desejos do agente) são causas da ação. Essa tese aparentemente simples teve profundas implicações: reconciliou a inteligibilidade racional da ação com sua explicação causal e estabeleceu um arcabouço para compreender o raciocínio prático que permanece central na teoria da ação.
Ensaios sobre Ações e Eventos (1980) reuniu esses trabalhos seminais, incluindo "A Forma Lógica das Sentenças de Ação" (que introduz os eventos como categoria ontológica básica) e "Eventos Mentais" (onde apresenta o monismo anômalo).
Filosofia da Linguagem: Verdade e Significado
A ideia mais influente de Davidson na filosofia da linguagem foi a de que uma teoria tarskiana da verdade pode funcionar como teoria do significado para as línguas naturais. Em "Verdade e Significado" (1967), propôs que dar o significado das sentenças de uma língua equivale a fornecer uma teoria sistemática que implique, para cada sentença s da língua, uma T-sentença da forma: "s é verdadeira se e somente se p" — onde p fornece as condições de verdade de s.
A inovação radical foi que o significado poderia ser teorizado sem postular significados como entidades. Uma teoria do significado é uma teoria das condições de verdade, e compreender uma língua consiste em apreender as interconexões sistemáticas entre as condições de verdade de suas sentenças.
A abordagem de Davidson à interpretação, desenvolvida em "Interpretação Radical" (1973) e outros ensaios, defendeu que os significados dos enunciados de um falante e os conteúdos de suas crenças devem ser determinados conjuntamente, sob a restrição do "princípio de caridade" — a exigência de que interpretemos os falantes como sendo em grande medida racionais e em grande medida corretos sobre o mundo. Isso torna significado e crença holísticos e interdependentes.
Monismo Anômalo
"Eventos Mentais" (1970) apresentou o monismo anômalo: a tese de que todo evento mental é idêntico a algum evento físico, mas não há leis psicofsísicas estritas conectando tipos mentais a tipos físicos. Os eventos mentais são físicos (monismo), mas suas descrições sob vocabulário mental não se reduzem a descrições físicas (anômalo). Essa posição procura reconciliar a eficácia causal do mental com a irredutibilidade das descrições mentais.
Obra Tardia
Em sua obra tardia, Davidson argumentou contra a própria ideia de esquema conceitual — um arcabouço que organiza a experiência — em "Sobre a Própria Ideia de um Esquema Conceitual" (1974), considerado "o ensaio mais importante da filosofia contemporânea". Argumentou que o dualismo de esquema e conteúdo é incoerente e, com ele, as formas de relativismo que dele dependem.
Davidson lecionou em Stanford, Princeton, na Universidade Rockefeller, na Universidade de Chicago e, finalmente, na UC Berkeley. Faleceu em 30 de agosto de 2003, em Berkeley, Califórnia.
Métodos
Citações Notáveis
"Nada pode contar como razão para manter uma crença exceto outra crença." — Uma Teoria Coerencial da Verdade e do Conhecimento (1983)
"Ao compartilhar uma língua, no sentido em que isso é exigido para a comunicação, compartilhamos uma imagem do mundo que, em seus traços gerais, deve ser verdadeira." — Sobre a Própria Ideia de um Esquema Conceitual (1974)
"Não existe tal coisa como uma língua, se por língua entendemos algo como o que muitos filósofos e linguistas supuseram." — Uma Bela Desordem de Epítafos (1986)
"Uma razão racionaliza uma ação somente se nos leva a ver algo que o agente viu, ou julgou ver, em sua ação — alguma característica, consequência ou aspecto da ação que o agente queria, desejava, prezava, considerava obrigatório, benéfico ou agradável." — Ações, Razões e Causas (1963)
Obras Principais
- Actions, Reasons, and Causes Ensaio (1963)
- Truth and Meaning Ensaio (1967)
- Mental Events Ensaio (1970)
- On the Very Idea of a Conceptual Scheme Ensaio (1974)
- Essays on Actions and Events Livro (1980)
- Inquiries into Truth and Interpretation Livro (1984)
- Subjective, Intersubjective, Objective Livro (2001)
Influenciado por
- Willard Van Orman Quine · influence
Fontes
- Stanford Encyclopedia of Philosophy
- Donald Davidson: Meaning, Truth, Language, and Reality (Lepore & Ludwig, 2005)
- The Cambridge Companion to Davidson (forthcoming)
- Davidson's Philosophy of Language (Lepore & Ludwig, 2007)