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Filósofos / Boécio
Medieval

Boécio

c. 477 – 524
Rome, Italy
Neoplatonismo Escolástica Metaphysics Ethics Logic Theology Philosophy of Religion Philosophy of Time
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Anicius Manlius Severinus Boethius foi o último grande filósofo romano e uma ponte crucial entre os mundos antigo e medieval. Seu *Consolação da Filosofia* — escrito na prisão enquanto aguardava a execução — é uma das obras mais lidas da Idade Média: um diálogo entre o prisioneiro Boécio e a figura personificada da Senhora Filosofia, que o consola por meio de argumentos extraídos de Platão, Aristóteles e os estoicos. Suas traduções latinas e comentários sobre as obras lógicas de Aristóteles tornaram-se o fundamento da lógica medieval e o principal canal pelo qual a filosofia aristotélica chegou ao Ocidente latino.

Ideias Principais

A Consolação da Filosofia, a roda da Fortuna, o bem supremo como Deus, presciência divina e liberdade humana, a eternidade como totalidade simultânea, o problema dos universais, traduções latinas de Aristóteles, a Senhora Filosofia como guia terapêutica

Contribuições Principais

  • Escreveu a *Consolação da Filosofia* — uma das obras mais influentes da Idade Média
  • Traduziu e comentou as obras lógicas de Aristóteles, criando o fundamento da lógica medieval
  • Introduziu o problema dos universais na filosofia latina por meio de seu comentário à *Isagoge*
  • Forneceu a formulação clássica da eternidade divina como 'a posse total e perfeita, de uma só vez, de uma vida sem limites'
  • Fez a ponte entre a Antiguidade e o mundo medieval, transmitindo a filosofia clássica à cristandade latina

Questões Centrais

Onde pode ser encontrada a verdadeira felicidade?
Como a presciência divina pode ser reconciliada com o livre-arbítrio humano?
Qual é a natureza da Fortuna e como devemos respondê-la?
Os universais (gênero, espécie) existem na realidade ou apenas na mente?

Teses Principais

  • A verdadeira felicidade se encontra somente em Deus, não na riqueza, no poder, na fama ou no prazer
  • A roda da Fortuna gira inevitavelmente — o apego aos bens mundanos garante o sofrimento
  • A presciência de Deus não elimina a liberdade humana porque Deus vê todas as coisas num eterno presente
  • A eternidade é a posse total e perfeita, de uma só vez, de uma vida sem limites
  • Os maus são mais fracos e miseráveis do que os bons, pois não conseguem alcançar seu verdadeiro fim
  • A filosofia é a verdadeira medicina da alma

Biografia

Vida

Boécio nasceu por volta de 477 d.C. em uma das mais distintas famílias aristocráticas de Roma, os Anícii. Recebeu uma educação excepcional (possivelmente em Atenas ou Alexandria) e era renomado como o homem mais erudito de sua época. Ingressou no serviço público sob o rei ostrogodo Teodorico, que governava a Itália a partir de Ravena, ascendendo ao cargo de cônsul em 510 d.C. e posteriormente de magister officiorum (chefe de todos os serviços governamentais e assuntos da corte).

Boécio concebeu um ambicioso projeto intelectual: traduzir toda a obra de Platão e Aristóteles para o latim e demonstrar seu acordo fundamental. Completou traduções e comentários das Categorias, Da Interpretação, Primeiros Analíticos, Tópicos e Refutações Sofísticas de Aristóteles, além da Isagoge de Porfírio. Também escreveu tratados originais sobre lógica, aritmética, música e teologia.

Em 523 d.C., Boécio foi acusado de traição e conspiração — acusações que protestou serem fabricadas por inimigos políticos. Foi aprisionado em Pávia e, após um período de detenção, executado em 524 d.C. Foi durante esse encarceramento que compôs a Consolação da Filosofia.

A Consolação da Filosofia

A Consolação é um prosímetro — alternando prosa e verso — em cinco livros. O prisioneiro Boécio, lamentando sua queda da fortuna, recebe a visita da Senhora Filosofia, que gradualmente o conduz por uma terapia filosófica:

  • Livro I: A Filosofia afasta as Musas da Poesia e diagnostica a condição de Boécio: ele esqueceu sua verdadeira natureza.
  • Livro II: A natureza da Fortuna — sua roda gira inevitavelmente; o apego aos bens mundanos garante o sofrimento.
  • Livro III: O verdadeiro bem — a felicidade não se encontra na riqueza, no poder, na fama ou no prazer, mas em Deus, o bem supremo.
  • Livro IV: O problema do mal — os maus são na verdade mais fracos e miseráveis do que os bons, pois não conseguem alcançar seu verdadeiro fim.
  • Livro V: Destino, providência e livre-arbítrio — a presciência de Deus sobre os eventos não elimina a liberdade humana, pois Deus conhece todas as coisas num eterno presente.

Notavelmente, a Consolação não faz referência ao cristianismo — seus argumentos são extraídos inteiramente da filosofia clássica. Isso tem intrigado os estudiosos, mas pode refletir a convicção de Boécio de que a filosofia, em sua forma mais elevada, fala de verdades universais acessíveis à razão.

Legado

Boécio foi um dos pensadores mais influentes da Idade Média. Suas obras lógicas (especialmente seu comentário à Isagoge, que introduziu o problema dos universais) foram o fundamento da filosofia medieval. A Consolação foi traduzida para o inglês pelo rei Alfredo, por Chaucer e pela rainha Elizabeth I, e foi um dos textos mais copiados e estudados do período medieval. Sua definição de eternidade ('a posse total e perfeita, de uma só vez, de uma vida sem limites') e sua solução para o problema da presciência divina e da liberdade humana permaneceram referências padrão por séculos.

Métodos

Prosimetrum — alternating prose and verse for philosophical exposition Therapeutic dialogue — Lady Philosophy as physician of the soul Translation and commentary on Aristotelian logic Synthesis of Platonic, Aristotelian, and Stoic arguments

Citações Notáveis

"Nos outros seres vivos, a ignorância de si mesmos é natureza, mas nos homens é um vício." — Consolação da Filosofia
"Nada é miserável a não ser que você o julgue assim; e, ao contrário, nada traz felicidade a não ser que você esteja contente com isso." — Consolação da Filosofia
"Quem daria uma lei aos amantes? O amor é, em si mesmo, uma lei superior." — Consolação da Filosofia
"A música está tão naturalmente unida a nós que não podemos nos libertar dela mesmo que o desejemos." — De Institutione Musica
"Se há um Deus, de onde procedem tantos males? Se não há Deus, de onde procede algum bem?" — Consolação da Filosofia

Obras Principais

  • Commentary on Porphyry's Isagoge Tratado (510)
  • On the Consolation of Music (De Institutione Musica) Tratado (510)
  • Consolation of Philosophy (Consolatio Philosophiae) Diálogo (524)

Influenciou

Fontes

  • Henry Chadwick, 'Boethius: The Consolations of Music, Logic, Theology, and Philosophy' (Oxford UP, 1981)
  • John Marenbon, 'Boethius' (Oxford UP, 2003)
  • Joel Relihan (trans.), 'Boethius: Consolation of Philosophy' (Hackett, 2001)
  • Noel Harold Kaylor and Philip Edward Phillips (eds.), 'A Companion to Boethius in the Middle Ages' (Brill, 2012)

Links Externos

Traduções

Portuguese
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Spanish
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Italian
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