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Filósofos / Álvaro Vieira Pinto
Contemporâneo

Álvaro Vieira Pinto

1909 – 1987
Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro, Brazil → Rio de Janeiro, Brazil
Existencialismo Marxismo philosophy of technology philosophy of science political philosophy social philosophy philosophy of education
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Álvaro Vieira Pinto foi um filósofo brasileiro da ciência, da tecnologia e do desenvolvimento nacional cujo trabalho no Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB) no Rio de Janeiro durante o final dos anos 1950 e início dos anos 1960 fez dele uma das figuras mais importantes na filosofia da consciência nacional e do desenvolvimentismo na América Latina. Suas obras maiores — particularmente *Consciência e Realidade Nacional* (1960), *Ciência e Existência* (1969) e o influente *O Conceito de Tecnologia* (2005, póstumo) — desenvolvem uma filosofia rigorosa e existencialmente fundamentada do conhecimento que situa o pensamento científico e tecnológico nas condições históricas concretas das nações subdesenvolvidas.

Ideias Principais

Consciência nacional, consciência crítica vs. consciência ingênua, filosofia da ciência como prática situada, dialética do desenvolvimento, crítica da tecnologia autônoma, subdesenvolvimento e pensamento

Contribuições Principais

  • Desenvolveu uma filosofia sistemática da consciência nacional (consciência nacional), distinguindo a consciência crítica da consciência ingênua no contexto do subdesenvolvimento brasileiro
  • Escreveu Ciência e Existência, uma das filosofias da ciência mais rigorosas da história intelectual latino-americana
  • Compôs O Conceito de Tecnologia, análise crítica abrangente do conceito de tecnologia em confronto com Heidegger, Ellul e outros teóricos da técnica autônoma
  • Argumentou que o pensamento científico e tecnológico é sempre historicamente situado nas relações sociais concretas, nunca um procedimento neutro a-histórico
  • Influenciou diretamente o conceito de conscientização de Paulo Freire, que se tornou o fundamento da pedagogia crítica mundial
  • Forneceu um arcabouço filosófico para compreender o subdesenvolvimento como condição historicamente produzida da consciência, não deficiência natural ou cultural

Questões Centrais

Qual é a relação entre a consciência nacional e a realidade histórica concreta de uma nação subdesenvolvida?
Como a consciência ingênua reproduz padrões coloniais de pensamento mesmo após a independência política?
O conhecimento científico é um procedimento neutro e universal ou uma prática social historicamente situada e moldada por relações de poder?
A tecnologia é uma força autônoma que determina a vida humana, ou é constituída pelas relações sociais de produção?
Que tipo de consciência é necessário para a genuína autodeterminação e o desenvolvimento nacional?

Teses Principais

  • O desenvolvimento nacional requer o desenvolvimento de uma consciência nacional crítica capaz de apreender a totalidade concreta da situação histórica da nação
  • A consciência ingênua reproduz as categorias das nações dominantes e, com isso, reproduz as relações de dependência; a consciência crítica apreende a particularidade da realidade nacional
  • O conhecimento científico é historicamente situado: as perguntas, os métodos e as aplicações da ciência são moldados por interesses sociais e formações ideológicas
  • A filosofia burguesa da tecnologia (Heidegger, Ellul) apresenta a tecnologia como autônoma precisamente para obscurecer as relações sociais de produção que efetivamente a constituem
  • A alienação dos trabalhadores em relação à tecnologia não é intrínseca à técnica, mas consequência das relações sociais capitalistas

Biografia

Formação

Álvaro Borges Vieira Pinto nasceu em 14 de junho de 1909, em Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro. Estudou medicina e, em seguida, filosofia na Universidade do Brasil (hoje UFRJ), tendo posteriormente realizado estudos avançados de filosofia na Alemanha, onde se deparou com a fenomenologia de Husserl e Heidegger. Essa formação fenomenológica seria decisiva para toda a sua obra filosófica subsequente.

ISEB e a Filosofia do Desenvolvimento Nacional

Em 1955, Vieira Pinto tornou-se professor no Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), o mais importante centro do pensamento nacionalista e desenvolvimentista na América Latina do século XX. No ISEB, desenvolveu sua contribuição filosófica mais influente: uma filosofia sistemática da 'consciência nacional'. Seus dois volumes de Consciência e Realidade Nacional (1960) constituem a obra filosoficamente mais rigorosa do ambiente do ISEB.

Vieira Pinto dirigiu sua crítica ao que chamou de 'consciência ingênua' — a consciência das elites e intelectuais brasileiros que, moldados pelos padrões coloniais de pensamento, compreendiam a realidade brasileira pelas lentes das nações desenvolvidas. Contra ela, advogou a 'consciência crítica' — capaz de apreender a totalidade histórica concreta de sua situação. Essa distinção foi retomada e transformada por Paulo Freire, que a desenvolveu em seu conceito de 'conscientização'.

Ciência e Existência

A obra filosoficamente mais substancial de Vieira Pinto, Ciência e Existência (1969), é uma filosofia da ciência de mais de seiscentas páginas que desenvolve uma concepção do conhecimento científico como prática humana historicamente situada, nunca como procedimento formal a-histórico. O argumento central é que o pensamento científico está sempre enraizado em condições sociais e históricas concretas — observação que Vieira Pinto aplica com especial atenção à situação dos países subdesenvolvidos.

O Conceito de Tecnologia

A obra tardia mais ambiciosa de Vieira Pinto, O Conceito de Tecnologia (dois volumes, redigidos nos anos 1970, publicados postumamente em 2005), é um exame crítico sustentado do conceito de tecnologia e de seus usos ideológicos. O argumento central é que a filosofia burguesa da tecnologia — incluindo a análise heideggeriana da 'essência da tecnologia' e a teoria de Ellul da técnica autônoma — é ideologicamente enviesada: apresenta a tecnologia como força autônoma que ultrapassa os propósitos humanos, obscurecendo assim as relações sociais de produção e poder nas quais as tecnologias são efetivamente desenvolvidas e implantadas.

Exílio e Legado

O golpe militar de 1964 interrompeu sua trajetória. Como muitos intelectuais do ISEB, Vieira Pinto foi visado pelo regime e foi ao exílio, passando anos no Chile, em Cuba e na Bulgária, retornando ao Brasil após a anistia de 1979. Faleceu em 5 de junho de 1987, no Rio de Janeiro. Álvaro Vieira Pinto é reconhecido como um dos filósofos brasileiros intelectualmente mais substanciais do século XX.

Métodos

phenomenological existentialism Hegelian dialectics historical materialism philosophy of science critique immanent critique of technology philosophy

Citações Notáveis

"A consciência ingênua é aquela que, não se sabendo historicamente determinada, reproduz as categorias do dominador como se fossem verdades eternas." — Consciência e Realidade Nacional (1960)
"A ciência não flutua em um éter atemporal. Ela nasce de perguntas que homens históricos, em situações históricas, fazem à natureza." — Ciência e Existência (1969)
"A tecnologia não é uma força autônoma que domina o homem: ela é uma prática humana determinada pelas relações sociais em que se insere." — O Conceito de Tecnologia (2005)
"O subdesenvolvimento não é um dado natural: é uma forma historicamente produzida de existência econômica e, consequentemente, de consciência." — Consciência e Realidade Nacional (1960)

Obras Principais

  • Consciência e Realidade Nacional (2 vols.) Livro (1960)
  • Ideologia e Desenvolvimento Nacional Livro (1960)
  • A Questão da Universidade Livro (1961)
  • Ciência e Existência: Problemas Filosóficos da Pesquisa Científica Livro (1969)
  • O Conceito de Tecnologia (2 vols., posthumous) Livro (2005)

Influenciou

Fontes

  • Vieira Pinto, Álvaro. Consciência e Realidade Nacional. 2 vols. Rio de Janeiro: ISEB, 1960.
  • Vieira Pinto, Álvaro. Ciência e Existência: Problemas Filosóficos da Pesquisa Científica. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1969.
  • Vieira Pinto, Álvaro. O Conceito de Tecnologia. 2 vols. Rio de Janeiro: Contraponto, 2005.
  • Freire, Paulo. Pedagogy of the Oppressed. Trans. Myra Bergman Ramos. New York: Herder and Herder, 1970.
  • Toledo, Caio Navarro de. ISEB: Fábrica de Ideologias. São Paulo: Ática, 1977.
  • Paim, Antônio. História das Idéias Filosóficas no Brasil. São Paulo: Grijalbo, 1967.
  • Dagnino, Renato. 'O Conceito de Tecnologia de Álvaro Vieira Pinto.' In Tecnologia Social. Brasília: Fundação Banco do Brasil, 2009.
  • Sodré, Nelson Werneck. Síntese do Desenvolvimento Cultural Brasileiro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965.
  • Heidegger, Martin. 'The Question Concerning Technology.' In Basic Writings. Trans. David Farrell Krell. New York: Harper & Row, 1977.
  • Ellul, Jacques. The Technological Society. Trans. John Wilkinson. New York: Knopf, 1964.

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